O que difere a loucura da lucidez diante da conspiração política estrutural e a humilhação sofrida por pacientes com transtornos mentais que ecoa até os dias atuais?

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.” (Friedrich Nietzsche)
Em um período sombrio da nossa história, para silenciar pessoas diagnosticadas como loucas ou as consideradas a escória da sociedade, mesmo sãs, os manicômios costumavam afogá-las em um balde de água fria até que pudessem perder o fôlego. Era assim que eles conseguiam calá-las, mesmo que por instantes, para abafar suas dores.
O projeto “Silêncio dos Afogados” é uma série de ficção do gênero dramático contemplado no ProAC 29/2019 para Desenvolvimento de Séries cujos roteiros estão em fase de desenvolvimento.
A série é livremente inspirada em eventos reais da nossa história: relatos de pessoas do passado (funcionários e pacientes); acontecimentos históricos; parte dos personagens representam figuras que existiram como médicos, pacientes e funcionários.
Ao se aproximar dos eventos reais traduzidos em tragédia humana, a série tem como fontes de pesquisa filmes, séries, livros e documentários como: o livro “Canto dos Malditos”, de Austregésilo Carrano, adaptado para o cinema em “O Bicho de Sete Cabeças”; o livro “Holocausto Brasileiro”, da escritora Daniela Arbex, que denunciou o genocídio de 60 mil mortes ocorridas no Hospício de Barbacena, em Minas Gerais, praticado pelo Estado com a conivência de médicos, funcionários e da população; documentários como "Em Nome da Razão" e "Epidemia de Cores"; e filmes como "Nise" e "Um Estranho no Ninho".
Essa época - "Holocausto Brasileiro" - se estendeu durante anos no país e até hoje colhe resquícios do passado: "a internação de pacientes feita a mando de autoridades locais, como delegados, prefeitos, vereadores e padres, além de familiares contra prostitutas, homossexuais, mendigos, pessoas sem documentos, epiléticos, alcoólatras, meninas grávidas e violentadas por seus patrões, entre outros grupos marginalizados na sociedade. Em resumo: durante o Holocausto Brasileiro, era preciso livrar-se da escória, do mal social e do incômodo em um local onde ninguém pudesse ter acesso." (Daniela Arbex em Holocausto Brasileiro)
“A arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal.” (Raul Seixas)
O potencial e a relevância desse projeto se dá à medida que a série questiona o que, de fato, separa os loucos dos sãos diante da conspiração política estrutural e a humilhação sofrida pelos pacientes que ecoa até os dias atuais.

Por anos esse tema ficou escondido da nossa história e agora é preciso, mais do que nunca, trazê-lo à tona para propor um olhar aprofundado da nossa sociedade em relação aos abusos como forma de redenção ao nosso passado, onde todos fomos cúmplices dessas atrocidades.
Enquanto este prolífico e inquieto autor mergulha na criação da série, este espaço foi criado pra gente se inspirar e compartilhar conteúdos envolvendo a temática, sobretudo, no tocante à luta antimanicomial.
Sejam todos muito bem-vindos! :)
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