O “Rompendo o Silêncio” entrevistou a psicóloga Samantha Agar de Oliveira Bomfim.
Samantha se dedica ao atendimento a adultos, idosos, casais e grupos, também realizando palestras e workshops voltados para a prevenção e promoção da saúde mental.
Você acha que todo o tabu e preconceito envolvendo o usuário de saúde mental é decorrente de um fator histórico onde procurou-se isolar as pessoas consideradas “loucas”?
Com certeza esse tabu vem se mantendo ao longo da história pela segregação de pessoas com doenças mentais, que eram isoladas e estigmatizadas, sofrendo tratamento desumano. Apesar das lutas desde o início do movimento de Reforma Psiquiátrica, ainda esbarramos em alguns preconceitos relacionados ao tratamento de transtornos mentais.
Fala-se em Holocausto Brasileiro quando se refere à história de algumas unidades de saúde mental como o hospital Colônia, em Barbacena, onde dezenas de milhares de pessoas morreram privadas de seus direitos humanos. Na sua opinião, o que avançou na luta antimanicomial ao longo dos anos?
A Reforma Psiquiátrica pode trazer um pouco mais de coerência, considerando a necessidade de tratamento mais efetivo com relação aos transtornos mentais, e humanização para os doentes que, de acordo com suas limitações, puderam se enxergar como indivíduos sociais. Ainda temos um longo caminho a seguir, mas os passos estão sendo dados. Precisamos contar com a conscientização da sociedade para que esse movimento ganhe força e seja cada vez menos impactado pelo preconceito.

Nos períodos de maior lotação, 16 pessoas morriam todos os dias. Foto: Divulgação/Luiz Alfredo/Revista O Cruzeiro
Como resolver essa questão e trazer luz ao tema nos dias de hoje? Por que é tão importante a gente falar dessa temática da Luta Antimanicomial, Reforma Psiquiátrica, Saúde Mental hoje em dia?
Acredito que essa importância nunca parou de existir. Quando falamos nesses temas, estamos reafirmando o direito que todos temos de sermos tratados como seres humanos, independente de nossas doenças ou limitações.
Estamos falando sobre a necessidade de entendermos e aceitarmos que as diferenças existem e precisamos aprender a lidar com elas. Pensando na atualidade, temos a internet como uma boa parceira para a disseminação dessas ideias. Mas, principalmente, precisamos falar cada vez mais destes temas, apresentando o valor dessas temáticas e os benefícios para os envolvidos. Quanto mais comum esses assuntos se tornarem, maior o
entendimento da sociedade.
“Silêncio dos Afogados” traz o universo dos manicômios e da saúde mental no Brasil no século XX. Como você enxerga a abordagem de temáticas históricas de cunho político-social no entretenimento?
Somos um povo considerado sem memória. Nesse aspecto, acredito que existe a necessidade de sempre colocarmos em voga questões históricas importantes para que possamos perceber o impacto do passado atualmente. Saúde mental por si só, já é um tema tabu. E questões assim precisam ser expressas de todas as maneiras o tempo todo, para que um dia possa ser reconhecida socialmente por sua importância e não pela presença do medo.
Como o audiovisual (cinema, TV, internet) pode ser um espaço de reflexão?
As áreas de comunicação têm um papel crucial para a expansão dessas ideias e consequentemente promovem a reflexão e o questionamento. É de suma importância que assuntos como Saúde Mental fiquem cada vez mais expostos para que as pessoas se sintam confortáveis em abordá-los e, desta forma, de se tratar da maneira correta. Acredito que essa estratégia é a mais eficaz para que a sociedade tenha a visão adequada dessa questão.

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